Para o argentino, carro ainda é investimento => https://revistaautoesporte.globo.com/revista/noticia/2020/08/para-o-argentino-carro-ainda-e-investimento.html
(Foto: Getty images) Apesar dos sérios problemas econômicos existentes na Argentina, o mercado de veículos do país tem sofrido menos com a pandemia do novo coronavírus do que o do Brasil. Em maio, por exemplo, enquanto aqui as vendas caíram 75% em relação ao mesmo mês do ano passado, na Argentina a retração foi de 43%. No país vizinho existe uma peculiaridade em relação ao automóvel que nem um vírus mortal é capaz de destruir. O argentino compra carro não apenas como meio de transporte, mas também com a finalidade de proteger seu dinheiro . Vários motivos o levam a isso. Uma das principais razões para gastar ao invés de guardar é evitar deixar o dinheiro em bancos , um trauma que persegue a população argentina desde o famoso "corralito", em 2001. Naquele ano, em meio a uma profunda crise econômica, o governo bloqueou todos os depósitos bancários. Além disso, comprar um bem de alto valor também serve como proteção em um país onde a inflação não dá trégua . Chegou a 53,8% em 2019. Outro motivo é a desvalorização da moeda local numa economia em que a escassez de dólares é um problema crônico. A cotação do dólar no paralelo tem ficado em torno de 70% acima do valor no oficial. Com isso, produtos importados, cujos preços se baseiam no dólar oficial, atraem o consumidor . É uma forma de ele se "dolarizar", como diz um economista argentino, ou de fazer um investimento seguindo seu costume. Alguns também compram carros com o dinheiro obtido por meio da venda de dólares nas casas de câmbio do mercado negro. O Brasil ganha com isso, uma vez que mais de 60% dos carros vendidos na Argentina são importados do país . Em geral, as montadoras produzem modelos médios e picapes na Argentina e os pequenos no Brasil. A ideia é fazer com que o intercâmbio entre os dois países funcione naturalmente. Mas nem tudo funciona perfeitamente quando se trata de Brasil e Argentina. A falta de dólares levou o governo argentino a restringir importações entre maio e junho. Isso provocou o acúmulo de centenas de carros brasileiros nos portos do país vizinho. E até falta de alguns modelos de entrada nas concessionárias argentinas, o que deixou os executivos das fabricantes furiosos. No Brasil, o carro deixou de ser investimento há anos . Mas, na pandemia, alguns consumidores aproveitaram mudanças de planos para trocar o veículo. Concessionários, que atendiam quase às escondidas enquanto o comércio estava proibido de abrir, registraram algumas histórias assim. É o caso, por exemplo, do cliente que havia programado uma viagem em família, mas teve que adiá-la em razão da pandemia. O dinheiro foi, então, usado para antecipar a troca do carro. Outros, desanimados com baixos rendimentos de aplicações financeiras, também optaram por "investir" em um novo automóvel. Histórias como essas revelam que, na América do Sul, a dinâmica dessa indústria sempre enfrenta percalços típicos da região. Por aqui, também, o envolvimento do consumidor com os carros nem sempre segue a lógica da crise da vez. Quer ter acesso a conteúdos exclusivos da Autoesporte? É só clicar aqui para acessar a revista digital. Marli Olmos, é repórter especial do Valor Econômico e tem grande foco na indústria automobilística
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